A relação de Poder entre as 3 instâncias: Política x Sociedade x Mídia

 Após a vitória, logo chegam as cobranças. Muitos prefeitos e vereadores eleitos em 2020 já sentem no dia a dia a cobrança da mídia e dos eleitores sobre problemas não resolvidos e o cumprimento de propostas feitas no período eleitoral. Por que tantos políticos têm dificuldade em gerir esta expectativa?

Para respondermos ao questionamento é preciso compreender como funciona o discurso político e as instâncias de Poder.

É importante definir a natureza do discurso político como fundamento na relação entre linguagem e ação. A palavra política funciona entre a "verdade do dizer" e a "verdade do fazer", ou seja, uma verdade da ação que se manifesta por meio de uma palavra de decisão e uma verdade da discussão, que se manifesta por meio de uma palavra de persuasão (razão) ou sedução (paixão). 

O fazer e o falar sempre caminham juntos. O caminho político funciona na conjunção de discurso de ideias e discursos de poder (verdade e possibilidade), pensamento e ação. Essa é a instância política, onde o "fazer" depende de burocracias, legislações, aprovação de orçamentos, licitação, acordos políticos, etc.

Já a instância cidadã, formada pela sociedade civil, gera expectativas logo que acaba a eleição. Uma nova escola, construção de hospital, melhoria no trânsito, etc. Durante a campanha eleitoral muitos temas são levantados e promessas feitas. E esses desejos, que na maioria das vezes são necessidades imediatas, ficam na mente do cidadão e a cobrança é inevitável.

Ocorre que o tempo de execução da instância política não é o mesmo período de espera da instância cidadã. Para o cidadão, um novo hospital deve sair logo, mas para a instância política é precisa uma série de questões que demoram pra resolver.

Há ainda a instância midiática, que cobra, reivindica e denuncia os temas que, normalmente, foram tratados na campanha eleitoral. Neste espaço midiático, a instância cidadã ganha voz e a instância política deve sempre obedecer à lógica do ser verdadeiro para evitar o "ele mentiu". Pra isso, evitar o silêncio, a omissão, a denegação e a generalidade, são estratégias essenciais.

A degenerescência se baseia na constatação da construção da imagem política por meio da sedução, dramatização dos acontecimentos, uma visão do mundo fragmentada e atemporal a uma série de derrapagens do discurso midiático, como, por exemplo, de "veja sobre o que se deve pensar" para "o que se deve pensar"; do "veja o que dizem os políticos" para o "veja o que eles pensam de verdade".

Por fim, como gerir tudo isso? A resposta é uma comunicação pública eficiente de forma que tenha como finalidade a gestão da expectativa da instância cidadã por meio de ferramentas digitais e da própria instância midiática. Ser transparente nos atos, expressar o andamento das ações, explicar atrasos, expor cronograma de atividades, etc. 

A boa Comunicação deve trabalhar de modo que responda ao questionamento do cidadão antes que ele de fato se questione.

Comentários

  1. Parabéns, Fernando! Um texto que nos mostra a realidade do tempo, haja vista o tempo dos políticos ser diferente do tempo da sociedade.

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